quarta-feira, 18 de maio de 2011

Idéias de um canário - Machado de Assis

      Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome de Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Algum chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração.

     No princípio do mês passado, disse ele, indo por uma rua, sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de uma loja de belchior. Nem o estrépito do cavalo e do veículo, nem a minha entrada fez levantar o dono do negócio, que cochilava ao fundo, sentado numa cadeira de abrir. Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabeça enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente não achara comprador. Não se adivinhava nele nenhuma história, como podiam ter alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas.

     A loja era escura, atulhada de coisas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panelas, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dois cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e mais que não vi ou não me ficou na memória, enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras coisas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão.

      Ia sair, quando vi uma gaiola pendurada à porta. Tão velha como o resto, para desolação geral faltava-lhe estar vazia. Não estava vazia. Dentro pulava um canário. A cor, a animação e a graça do passarinho davam aquele amontoado de destroços uma nota de vida e mocidade. Era o último passageiro de algum naufrágio, que foi parar íntegro e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais, abaixo e acima, de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio daquele cemitério brincava um raio de sol. Não atribuo essa imagem ao canário, senão porque  falo a retórica; em verdade não pensou em cemitério nem sol, segundo me disse depois. Eu de envolta com o prazer que me trouxe aquela vista, senti me indignado do destino do pássaro, e murmurei baixinho palavras de azedume.

     Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente, não querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum pequeno,que o vendeu para ir jogar uma quimela?

E o canário quedando-se em cima do poleiro, trilou isto;



     - Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu juízo. Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. São imaginações de pessoa doente; vai-te curar, amigo...

     - Como? interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Então o teu dono não te vendeu a esta casa? Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol?

     - Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas estou que confundes.

     - Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém, salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado.

     -Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco;mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo.



     Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as idéias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, saía do bicho em trilos engraçados. Olhei em volta de mim, para verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja escura, triste e úmida. O canário, movendo a um lado e outro, esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do espaço azul infinito...



     - Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço azul e infinito?

     - Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que coisa é o mundo?

     - O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de Belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.



     Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os pés. Perguntou-me se queria comprar o canário. Indaguei se o adquirira, como o resto dos objetos que vendia, e soube que sim, que o comprara a um barbeiro, acompanhado de uma coleção de navalhas.



     - As navalhas estão em muito bom uso, concluiu ele.

     - Quero só o canário.



     Paguei-lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e arame, pintada de branco e ordenei que a pusessem na varanda da minha casa, donde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do céu azul.

     Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por alfabetar a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências.

Feita essa analise filológica e psicológica, entrei propriamente na historia dos canários, na origem deles, primeiros séculos, geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação, etc. Conversávamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando, saltando, trilando.

Não tendo mais família que dois criados, ordenava-lhes que não me interrompessem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente, ou visita de importância. Sabendo ambos das minhas ocupações cientificas, acharam natural a ordem, e não suspeitaram que o canário e eu nos entendíamos.

     Não é mister dizer que dormia pouco, acordava duas e três vezes por noite, passeava à toa, sentia-me com febre. Afinal tornava ao trabalho, para reler, acrescentar, emendar. Retifiquei mais de uma observação, - ou por havê-la entendido mal, ou porque ele não a tivesse expresso claramente. A definição do mundo foi uma delas. Três semanas depois da entrada do canário em minha casa, pedi-lhe que me repetisse à definição do mundo.



     - O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.



     Também a linguagem sofreu algumas retificações, e certas conclusões, que me tinham parecido simples, vi que eram temerárias. Não podia ainda escrever a memória que havia de mandar ao Museu Nacional, ao Instituto Histórico e às universidades alemãs, não porque faltasse matéria, mas para acumular primeiro todas as observações e ratificá-las. Nos últimos dias, não saía de casa, não respondia as cartas, não quis saber de amigos nem parentes. Todo eu era canário. De manhã, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e pôr-lhe água e comida. O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava qualquer preparo científico. Também o serviço era o mais sumário do mundo; o criado não era amador de pássaros.

     Um sábado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doíam-me. O médico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, não devia ler nem pensar, não devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e só então soube que o canário, estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para esganar o criado; a indignação sufocou-me, caí na cadeira, sem voz, tonto. O culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho é que fugira por astuto...



     - Mas não o procuraram?

     -Procuramos, sim, senhor; a princípio trepou ao telhado, trepei também, ele fugiu, foi para uma árvore, depois escondeu-se não sei onde. Tenho indagado desde ontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareiros, ninguém sabe nada.



     Padeci muito; felizmente, fadiga estava passada, e com algumas horas pude sair à varanda e ao jardim. Nem sombra de canário. Indaguei, corri, anunciei e nada. Tinha já recolhido as notas para compor a memória, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes chácaras dos arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta:



     -Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?



      Era o canário; estava no galho de uma árvore. Imaginem como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doido; mas que me importavam cuidados de amigos? Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular...



     - Que jardim? Que repuxo?

     - O mundo, meu querido.

    - Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.

     Indignado, retorqui-lhe, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já fora uma loja de Belchior...

     - De belchior? trilou ele às bandeiras despregadas. Mas há mesmo lojas de belchior? 


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Minhas reflexões sobre o texto

É o conto que mais me impressionou de Machado de Assis, irei expor minha própria interpretação de acordo “do tamanho do meu mundo”.

O surpreendente dos contos de Machado de Assis é que cada leitor pode ter sua própria interpretação, por isso que é tão importante para mim  quem for lê-lo deixar escrita sua  própria reflexão.

 No inicio do texto quando canário se refere  ao dono como sendo seu escravo e age como se tudo que acontece é por causa dele, ele é o centro do seu universo. Isso me faz lembrar muito um pensamento de uma criança de um ou dois ou três anos, revelando assim, uma infantilidade do canário.

Então, Macedo leva-o para sua casa e coloca-o numa gaiola maior, que significa um universo maior me lembrando um adolescente. Então começa uma grande troca de informações e conhecimento entre os dois até o ponto que Macedo é todo canário, pois, me parece que ele o trata como sua criação, sua obra prima que o consome tanto que chega a ficar doente  e também mostra a sua ambição de ficar famoso pela sua  obra, e ao mesmo tempo, o canário já se sente seguro para aumentar seu horizonte, pois, absorveu o conhecimento necessário para não depender mais dos outros e poder alcançar sua ambição, a liberdade.

Sendo assim, o canário escapa da gaiola e a principio trepa no telhado, e depois em uma árvore por perto e depois numa grande chácara onde pode viver plenamente. Ao encontrar Macedo, ele demonstra carinho e desdém pelos ares de professor de Macedo pois parece-lhe que o professor não aceita que ele já é seu próprio professor, e Macedo ao vê-lo se demonstra terno e egoísta e até faz chantagem ao canário para que ele volte para sua casa como se o canário devesse tudo  o que conquistara  à ele, mas o canário não pode mais voltar, se voltasse à gaiola com certeza morreria e não iria viver sua vida com a liberdade que todos os pássaros e adultos têm o direito.

Para mim, isso demonstra uma relação paternal onde os filhos têm que partir para se realizarem e muitas vezes os pais os castram, deixando-os  dependentes deles, com chantagens e controle.

Eu fiz a interpretação desse conto baseado no livro "Memorial de Aires", onde o casal Aguiar tem Tristão e Fidélia como "filhos postiços" que acabam partindo para a Europa e Aires diz que até fez uma fábula à respeito por isso essa associação a esta fábula de Machado.

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